Estruturas de apoio ao estudante podem aumentar a retenção

Para muitos brasileiros, o sonho de completar uma graduação continua distante. Apenas 4 de cada 10 alunos que entram em um curso de graduação saem com um diploma em até 8 anos. Os dados do Censo do Ensino Superior, do INEP, mostram que a taxa de abandono não difere muito entre universidades públicas e particulares – 48% e 63%, respectivamente – e tampouco entre as modalidades presenciais (60%) e à distância (64%).  Embora dramáticos, estes dados são relativos ao ano de 2019, e sequer capturam as taxas de abandono relacionadas à pandemia.

Trata-se de um problema grave de eficiência para as instituições de ensino, e ainda pior para os estudantes que investem recursos e tempo sem conseguir alcançar a formação desejada. Em um país em que um diploma de ensino superior pode dobrar suas expectativas salariais, o abandono custa ainda mais caro. O censo do INEP não oferece detalhamento quanto às causas do abandono – mas é possível supor que muitos precisam conciliar estudos e trabalho (58% estão matriculados em cursos no turno noturno); e que enfrentam dificuldades na adaptação entre a educação básica e superior. Estas dificuldades são particularmente comuns para estudantes de primeira geração (que são os primeiros de sua família a estudar em nível universitário), que correspondem a cerca de 35% dos concluintes a cada ano. 

Embora seja comum aos diferentes tipos de instituições e modalidades de estudo, esta baixa taxa de conclusão não pode ser considerada natural. A média de abandono do ensino superior em países da OECD é metade da brasileira – 31%. O México, que possui um sistema de ensino superior comparável ao brasileiro em termos de estrutura e número de matrículas, tem uma taxa de abandono de 40%. O índice contribui para que o Brasil tenha um dos percentuais mais baixos de adultos com diploma de ensino superior – 17% da população, bem atrás dos 28% dos países da OECD.

Muitos destes países desenvolveram estruturas de apoio que permitem ao estudante uma transição mais tranquila da educação secundária para o ensino superior. Além de apoiar na transição, estes serviços oferecem aconselhamento e mentoria para os estudantes que podem estar enfrentando dificuldades que vão além das questões acadêmicas, como necessidades financeiras ou problemas familiares. Estes serviços em geral são organizados dentro de uma área de apoio ao estudante, comum na maior parte das universidades americanas e canadenses. Esta área também promove eventos de integração e apoia grupos auto-geridos de estudantes que se organizam em redes de apoio ou redes de interesse. O objetivo é evitar que o estudante abandone os estudos por se sentir sobrecarregado ou por não se sentir pertencente ao ambiente universitário.

Em algumas instituições, estes escritórios de apoio se tornaram parte central da experiência acadêmica, oferecendo atendimento personalizado e até fazendo a ponte entre estudantes e professores, quando necessário. O caso da Universidade de New Southern Hampshire (SNHU) é um exemplo inspirador, especialmente para universidades particulares no Brasil. Atendendo a um público de estudantes mais velhos, que muitas vezes concilia trabalho em tempo integral com os estudos, a instituição desenvolveu uma estrutura de tutores que trabalham individualmente com cada aluno – fazendo checagens mensais ou semanais, se necessário, e ajudando na estruturação de um programa de estudos que se encaixe com as suas demais responsabilidades. 

Naturalmente, uma estrutura de atendimento personalizada como esta tem um custo. Porém, considerando-se o desafio e o alto custo de aquisição de novos alunos para o ensino superior no Brasil (apenas 23% das vagas oferecidas por instituições privadas são preenchidas a cada ano), investimentos em retenção trazem benefícios tanto para a instituição quanto para o egresso. Estruturas de apoio aumentam a eficiência dos programas de ensino e a satisfação do aluno, e melhores taxas de conclusão podem inclusive ser usadas como diferencial competitivo na hora de atrair novos estudantes. Na outra ponta, para os alunos, contar com um serviço de apoio aumenta a autoconfiança, a resiliência, e o potencial de retorno do seu investimento no próprio desenvolvimento. 

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